1. INICIAL edio especial 45 anos set. 2013

1. CARTA AO LEITOR  H 45 ANOS SEMPRE A FAVOR DO BRASIL
2. IMPRENSA  O CRIADOR DE VEJA

1. CARTA AO LEITOR  H 45 ANOS SEMPRE A FAVOR DO BRASIL
     Procuramos homens e mulheres inteligentes e insatisfeitos, que leiam muito, sempre perguntem 'por qu?' e queiram colaborar na construo do Brasil de amanh", dizia o anncio escrito por Roberto Civita e publicado meses antes do lanamento de VEJA, em setembro de 1968, em REALIDADE, CLAUDIA e QUATRO RODAS, revistas de grande circulao da Editora Abril. Foi assim que Roberto Civita, que morreu em maio passado, recrutou a primeira leva de jornalistas de VEJA. 
     Desde o nmero 1 at este exemplar que voc tem em mos, edio extra que circula gratuitamente para assinantes junto  revista de nmero 2340, os profissionais de sucesso de VEJA so homens e mulheres inteligentes e insatisfeitos, vidos por leitura, que buscam entender o porqu das coisas, dispostos a cerrar fileiras a favor dos seus leitores e, como consequncia, do Brasil. 
     Na fala com que se despediu do pai, Giancarlo Civita reverberou o esprito construtivo, de curiosidade permanente e de justia que motivou o anncio de 1968. Disse Giancarlo: "Durante toda a sua vida Roberto Civita mostrou em atos e palavras que uma nao de verdade, vivel e justa, no nasce ao acaso. Ela precisa ser construda. Ele tinha certeza de que as ferramentas para isso so a educao e a liberdade de expresso". 
     Esta edio comemorativa de 45 anos, magistralmente editada por Fbio Altman, redator-chefe de VEJA, secundado pelo jornalista Rinaldo Gama,  uma cpsula do tempo, quase meio sculo, com o registro essencial do esprito da revista. Esto aqui em cada pgina a coragem de contrariar unanimidades burras, o destemor e a transparncia na exposio de seu ponto de vista e a obsesso pela qualidade editorial, pela notcia indita e pela reflexo original. 
     Nada como o teste do tempo para perceber o real valor de uma revista. S assim podem ficar patentes a constncia, a firmeza de princpios e sua aplicao sob as mais adversas circunstncias. Ao chegar a seus 45 anos de vida, VEJA pode se orgulhar de ter passado com louvor nesse teste. 
     Como exemplificam as capas que ilustram esta pgina, o relato de fatos que os governos prefeririam ver ocultos nos ps em confronto com o poder em diversos momentos de nossa histria. Em 1969, mesmo sob a censura dos militares, VEJA estampou na capa uma reportagem sobre as torturas praticadas por extremistas impunes do regime. Em 1977, Cuba era uma ilha de mistrio envolta em enigmas, e seu lder, Fidel Castro, personagem hostil ao governo brasileiro. Fidel foi capa de VEJA naquele ano. Em 1997, foi capa da revista o tropeo tico de um governo, de outra forma virtuoso, que deixou prosperar um esquema de compra de votos no Congresso visando  reeleio do presidente Fernando Henrique Cardoso. Obedeceu  mesma tbua de princpios a deciso de VEJA de publicar reportagens sobre corrupo no governo do PT, como essa de 2010, sobre a ousada operao ilegal instalada no prprio Palcio do Planalto. 
     O ESPECIAL 45 ANOS revisita 45 momentos cruciais, mostra como eles foram tratados pela revista e, com a ajuda de articulistas, sobrepesa suas consequncias atuais. Foram escolhas rduas a princpio, mas tudo se clareou assim que nos fixamos no critrio de que s daramos destaque a fatos que mudaram a trajetria poltica, econmica, social, cientfica, cultural ou tecnolgica do Brasil e do mundo. O resultado est em suas mos. Boa leitura! 


2. IMPRENSA  O CRIADOR DE VEJA
O nmero 1 da revista, com data de capa de 11 de setembro de 1968, comeou a ser concebido dez anos antes, quando o jovem Roberto Civita trocou um cargo de prestgio na sucursal de Tquio do maior semanrio de informaes do mundo pelo sonho de realizar trs grandes projetos no Brasil.
CARLOS MARANHO

     O embrio de VEJA se formou, em 1958, junto da bossa nova, da Braslia em construo, do surgimento da indstria automobilstica, da modernizao pela qual o pas passava no governo JK e da Seleo Brasileira de Futebol que ganhou nossa primeira Copa do Mundo. Todos esses marcos histricos seriam decisivos para transformar os rumos do Brasil e despertar o orgulho nacional. VEJA,  verdade, demoraria um pouco mais para sair do ovo. O embrio ainda ficaria se desenvolvendo em  silncio por uma dcada at que enfim pudesse vir  luz. 
     Naquele ano, o jovem Roberto Civita (1936-2013), depois de se graduar em jornalismo e administrao nos Estados Unidos, terminava um estgio na Time Inc., editora que publicava Time, Life e outras revistas de prestgio, e dela recebeu um convite que considerou irrecusvel: trabalhar como o nmero 2 na sucursal de Tquio. Para ele, seria a materializao de um sonho. Time, criada em 1923, j era o maior e mais influente semanrio de informaes do mundo. Durante o estgio, ele havia conhecido todo o seu funcionamento por dentro: passou pelas reas editorial, comercial, publicitria e de logstica, chegando a ajudar a distribuir algumas pilhas de edies, em longas madrugadas, nas bancas e em casas de assinantes. Eufrico com a proposta, tratou imediatamente de telefonar para VC, como costumava chamar seu pai. 
     Numa poca em que as ligaes internacionais demoravam horas at se completar, precisou segurar a ansiedade enquanto esperava o momento de lhe dar a boa-nova e, tinha certeza, receber os parabns. 
     VC eram as iniciais de Victor Civita, um empresrio ousado, empreendedor, otimista e visionrio que em 1950, aconselhado pelo irmo, trocara Nova York por So Paulo, onde fundou a Editora Abril. Naqueles primeiros oito anos, a Abril conquistou um crescente espao no mercado de revistas com uma srie de lanamentos em dois segmentos que atraam um nmero cada vez maior de leitores: as histrias em quadrinhos, com o Pato Donald e outros personagens criados por Walt Disney, e as fotonovelas, gnero que vivia seu auge e desapareceria com a popularizao da televiso. VC queria muito mais do que isso. Para que a Abril crescesse, contava com a colaborao de Roberto, o filho mais velho, e de Richard, o caula, que era estudante e s bem depois participaria dos negcios da famlia. Assim, quando Roberto lhe anunciou o convite da Time, sua reao imediata, em vez de transmitir o esperado "bravo!", foi afirmar que no achava aquilo uma boa ideia. Como por telefone seria difcil discutir o assunto em profundidade, mandou uma passagem para que o filho viesse conversar pessoalmente com ele. Ao fim de um voo de quase 24 horas que partiu de Nova York, com quatro escalas, Roberto encontrou o pai e disse que pretendia aceitar a proposta dos americanos. 
     "Mas voc no queria mudar o mundo?", provocou VC. "Sim, eu quero", confirmou Roberto. "No Japo ou em qualquer lugar do Hemisfrio Norte, voc no vai conseguir", argumentou VC. "L a concorrncia  muito grande, e voc ser apenas mais um. Aqui no Brasil h tudo a ser feito. Venha trabalhar em um negcio que tambm  seu. Sua alavanca para mudar o mundo ser muito maior." Roberto ficou desconcertado com a reao paterna. Pediu uma noite para pensar. Apesar do cansao da viagem, no dormiu. No dia seguinte, respondeu que voltaria sob uma condio: queria fazer trs revistas. Uma seria masculina, a PLAYBOY brasileira. Outra, uma publicao de negcios, nos moldes da americana Fortune, a futura EXAME. "E uma semanal de informaes, como a Time'", completou. VC aceitou. "Neste momento no temos condies, pois antes precisaremos nos fortalecer e crescer", ponderou. "Mas, logo que estivermos prontos, lanaremos as trs revistas. E muitas mais. Eu prometo." 
     Em outubro daquele mgico 1958, RC  que seria tratado assim no ambiente profissional  entrou oficialmente para a Abril. Menos de dois anos depois, participaria diretamente do lanamento de QUATRO RODAS, a primeira revista de contedo jornalstico da editora. Aos poucos viriam vrias outras e inmeros fascculos, entre os quais a BBLIA, a enciclopdia CONHECER e a srie de receitas BOM APETITE, todos com um xito estrondoso. Houve vendas de 1 milho de exemplares nas bancas. Em 1966, surgiu REALIDADE, que publicava mensalmente reportagens extensas, com textos bem escritos e fotos de alta qualidade, sobre temas de que a imprensa brasileira da poca quase no tratava, como comportamento, sexo e religio, alm de perfis surpreendentes. 
     RC dirigiu REALIDADE durante seu primeiro ano. Na redao, instalada no centro da capital paulista, ele discutia pautas, ajudava a escolher fotografias e editava reportagens, em meio  fumaa que saa de seus cachimbos Dunhill. "Reunimos uma equipe de jovens e brilhantes jornalistas", recordaria. A revista vendia cerca de 400.000 exemplares nas bancas. Seu sucesso, aliado ao fenmeno dos fascculos e  consolidao de vrios ttulos, capitalizou a Abril e tornou a empresa mais conhecida do pblico, respeitada no mercado e admirada por uma crescente legio de leitores. 
     Diante de tudo isso, em um clima de relativa estabilidade poltica e econmica naquele perodo inicial do regime militar, no fim de 1967, aps nove anos de gestao, pai e filho acharam que chegara a hora de dar a largada nos complicadssimos preparativos para o parto do Projeto Falco, nome codificado do que seria VEJA. "Estvamos prontos", diria RC. Mas havia imensos desafios pela frente. Foi a mais complexa operao na histria da empresa. Em um pas com estradas ruins, ferrovias sucateadas e aeroportos precrios em que pousavam aeronaves de pequena capacidade, sem contar o lento servio dos correios, era preciso garantir uma distribuio rpida e segura. Alm do mais, no se tinha ideia do que era uma revista de informaes, que poria os fatos em perspectiva, contaria no o que j acontecera mas o que estava acontecendo e apresentaria as notcias mais relevantes da semana de forma organizada, analtica e traduzida para o universo do leitor. Era necessrio explicar com clareza que tipo de semanrio seria esse, tanto para os leitores como para os anunciantes. Era preciso aparelhar a grfica e garantir uma impresso veloz e perfeita. Fazer as contas. E montar equipes  sobretudo a jornalstica e a de publicidade, que deveriam trabalhar em harmonia  mas separadas. 
     RC considerava que essa foi uma lio fundamental que aprendeu em sua passagem na Time e nos anos em que estudou nos Estados Unidos. Aplicou-a em toda a sua carreira de empresrio e editor: o jornalismo independente exige a separao entre Igreja e Estado, ou seja, entre o editorial e o comercial. Os leitores  e os profissionais envolvidos nas duas reas  no podem confundi-los. Matria  matria, anncio  anncio. Outro ensinamento que trouxe foi que a qualidade de uma publicao depende dos jornalistas que a fazem. Para recrutar a maioria deles, RC redigiu pessoalmente um anncio, veiculado em algumas revistas da casa, dizendo que a Abril procurava "homens e mulheres inteligentes e insatisfeitos, que leiam muito, sempre perguntem por qu?' e queiram colaborar na construo do Brasil de amanh". Das 1800 pessoas que responderam, 100 foram chamadas para fazer um curso intensivo de jornalismo em So Paulo. No final de trs meses, cinquenta se incorporaram ao time pioneiro da revista. Ao mesmo tempo, o diretor de redao, Mino Carta, preencheu os postos editoriais mais importantes com contrataes de peso. A faixa etria dos profissionais era semelhante  dos jornalistas de REALIDADE, na casa dos 30 anos. 
     Juntos, RC e Mino foram conhecer na Europa e nos Estados Unidos os maiores semanrios de informao que existiam no mundo. Na volta, comearam a ser preparadas  e impressas, com capa, reportagens e anncios  treze edies experimentais, batizadas internamente de nmeros zero. A cada semana, como um feto em formao, a revista foi ganhando o rosto que teria ao nascer, com a data de capa de 11 de setembro de 1968, exatamente dez anos aps o surgimento do embrio. Preservados na biblioteca especializada em imprensa que RC montou no mezanino de seu grande gabinete de trabalho, no 24 andar da sede da Abril, na Zona Oeste da capital paulista, com janelas voltadas para o Rio Pinheiros, aqueles nmeros zero foram inteiramente anotados e criticados por ele. Com caneta de tinta azul e lpis dermatogrfico vermelho, marcou erros de informao, falhas de estilo, imprecises, fotos inadequadas, tipos de letra difceis de ler, concluses que considerava equivocadas. Podia ser duro ("Complicado, longo, chato", apontou em um texto), minucioso ("Frases longas demais"  contou em uma delas 46 palavras) ou at condescendente ("Quase bom"). Em um artigo que se referia ao Brasil como "subdesenvolvido", corrigiu e deu o tom que a revista seguiria: "Cuidado! No somos. Sugiro dizer, sempre, em desenvolvimento". Marcava repeties desnecessrias de palavras e sublinhava ttulos que no aprovava. Com uma nica canetada, deu o nome definitivo de uma das sees mais lidas da revista, o nico que permanece inalterado ate hoje: "Gente". 
     Nos quase 45 anos seguintes. Roberto Civita repetiu, por escrito, em reunies ao vivo, por telefone e mais recentemente por teleconferncia, sugestes, dvidas e cobranas como essas em cada uma das 2308 edies de VEJA que, sem exceo, mesmo quando se encontrava em frias, passaram por seu crivo de editor  cargo no qual fazia questo de aparecer no topo do expediente da revista. A ltima delas circulou no Carnaval passado, quando ele se internou para uma cirurgia. Morreria trs meses depois, deixando como um dos legados a concepo, a criao e a consolidao da maior e mais influente revista da histria da imprensa brasileira, cuja trajetria at aqui  revivida nas prximas reportagens desta edio, que ele certamente leria com o orgulho e o esprito crtico do pai. 

A GESTAO EM QUATRO MOMENTOS
ZERO DEZ- Antes do lanamento, foram feitas treze edies experimentais completas como esta, com capa, reportagens e anncios. Eram chamadas de nmeros zero,
ZERO ONZE - Neste outro nmero zero, o destaque foi para as aes armadas da esquerda. Havia tambm matrias sobre o Galaxie, da Ford, e o sonho do estdio do Corinthians.
ZERO DOZE - Duas semanas antes de VEJA ir para as bancas, o assunto principal era a crise do mundo comunista aps a invaso da Checoslovquia, que seria o tema de capa do nmero 1.
ATRS DO LEITOR - Depois dos 700.000 exemplares iniciais, a circulao despencou. Esta edio de maio de 1969, anotada desde a capa com a letra arredondada de RC,  do perodo em que as vendas no chegavam a 100.000 cpias por semana.

A CANETA DO EDITOR
Desde os nmeros zero e as primeiras edies, RC assinalava em cada pgina as falhas que encontrava e mandava o exemplar anotado para a redao.

Matria boa. No muito bem escrita, apontou nesta reportagem no nmero 1
"Pouco claro." Durante a vida inteira, ele exigiu, alm da preciso das informaes, a clareza nos textos, jornalsticos ou no.
"Fecho ruim," Matrias de qualidade, costumava dizer, precisam ter comeo, meio e fim.
Troca certeira: em um dos nmeros zero, colocou com lpis vermelho dermatogrfico o nome da nica seo da revista que permanece inalterado at hoje. De VEJA E LEIA para GENTE
Nmeros errados nas distncias da Terra a Lua e da Terra a Vnus.
"S os industriais?" No se cansava de repetir: " preciso perguntar, perguntar. E ler, ler".
"Mon Dieu de la France!"  para uma frase longa e confusa.
"Complicado, longo e chato." O texto assim criticado  do primeiro zero, quando o nome da futura revista, ainda sigiloso, saa como BACD.


